
Canto nº 01
e naquilo ele atravessa a rua
esconde as mãos na jaqueta
mira pro chão a cabeça
empurra com os pés uma pedra
não ousa olhar pra trás
ela já fechou o portão
Canto nº 02
na incapacidade de amar
no pesar de umas palavras malditas
mal ditas, sem pensar
se perde, perdeu-se
perderam-se
sem mais nem menos
sem mais
é eros
é thanatos
foi tanto
foi-se tanto em tão pouco
vou-me
Canto nº 03
não sei se na última onda
ou nas que ficaram pra trás
perdeu sua fé na esperança
ao meu lado não quis estar mais
entendo que queira partir
tentar encontrar outro cais
o porto, agora distante
não será meu e seu nunca mais
e o vendaval vai chegar
eu sei, vai acontecer
estaremos bem longe da praia
meu bem
teremos que sobreviver
sem as estrelas no céu
e o risco de naufragar
perderei o medo da morte que vem
astronauta sozinho no mar
Canto nº 04
diabo nessa vida
é isso de gostar
a gente vai lá
gosta
e no fim não sabe
se gosta do que gostava
ou se gosta do gostar
Canto nº 05
toda renda deste livro
será revertida em cerveja
que por sua vez
será revertida em poesia
que por sua vez
será revertida em livro
que por sua vez,
bem, é sua vez
Canto nº 06
palavras são como boêmios
gostam de sair à noite
e a gente tem licença poética
pra achar que é poeta
Canto nº 07
a linguagem é insuficiente
para afirmar a insuficiência
da própria linguagem
não me fale em problema de linguagem!
Canto nº 08
escrevo
um pouco por vaidade
outro tanto: necessidade
vou escrevendo
é a caneta que sustenta
o fim do amor; a noite vazia
hei de escrever
desencadear palavras
livrar-se-lhes-te-me de mim
Canto nº 09
esculpir
usando o barro
ou uma pedra
compor
a partir do silêncio
ou de uma algazarra
escrever
a folha em branco
ou um desassossego
convergir
o tudo e o nada
para um meio
por um meio
Canto nº 10
desnorteado por um sol magnético
de um asteroide pequeno
aprendendo a voar
com os olhos envoltos por água
com lágrimas na língua
e um pouco de etanol
entre os cabelos
aprendendo a voar
on the road and sky
com o vento nos braços
e vestindo o lado avesso
aprendendo a voar
esperando por deus
ou forças misteriosas estranhas
aprendendo a voar
pra quando o carnaval chegar
entre palavras trocadas
aprendendo a voar
it’s a night of no rules
Canto nº 11
um lábio
uma viagem
uma saia
um carro
e um caderno
denver, méxico ou gutemburgo
é só
um lapso momentário de razão
um dia – a mais
ou uma noite – a menos
e só …
um momentário lapso de razão
razão
lapso
colapso
e isso ainda não é suficiente
Canto nº 12
a consciência da consciência
é algo inconsciente inconsequente
a existência da existência
é algo existencialista extensialista
a consequência da consciência
consiste na existência do sujeito
a consciência da consequência
impede a consistência da existência
do desejo do sujeito consciente
a mundialização do sujeito
e a sujeitação do mundo
são processos paralelos
bem como
a globalização do humano
e a humanização do globo
povoam os paralelos e meridianos
o medo de perder
e a incerteza de tentar
são produtos da mesma racionalidade subjetiva
o fluxo de ideias não segue a lógica
e a frequência da mão cortando o papel
que, por sua vez, submisso
aceita ideias distorcidas
de uma verdade inexistente
Canto nº 13
o subjetivismo do sujeito se faz presente
a partir do momento
em que o sujeito se faz sujeito
a ilusão da existência coexiste
num cosmo existencialista
com inúmeras teorias da existência racional
a consciência do desejo
parte contra o desejo da consciência
uma vez que
desejo e consciência são fontes antagônicas e beligerantes
a existência do sujeito
não pressupõe
a existência da consciência
assim como
a existência da consciência
não pressupõe
a existência do sujeito
a oposição entre a existência e a consciência
não é um confim obscuro
e sim um véu transparente
no qual embrenha-se o sujeito
um debate entre a existência e a consciência
seria algo espetacular
mesmo assim
é algo impossível
a consciência não crê na existência da existência
assim como
a existência não tem consciência da consciência
Canto nº 14
astronomia,
não tem ninguém lá
e caso haja
não enviaria uma mensagem
e mesmo que mande
nunca chegaria até aqui
e ainda que chegue
jamais conseguiria entender
astronomia,
o intangível é mais confortável
protege
da frustração
Canto nº 15
se soubéssemos
com exatidão
nesse exato instante
onde estão
(e com que [vetor] velocidade)
todas as partículas do universo
saberíamos, com a mesma exatidão
onde, no próximo instante t’,
estariam todas as partículas do universo
só que o universo é melindroso
e, por sua incerteza,
não nos permite saber
(vetor) velocidade e posição
num mesmo instante t
sequer de um elétron
Canto nº 16
cacos de vidro
num motim inédito
se juntam e decidem
se tornar um copo
a termodinâmica não interfere
só acha improvável
Canto nº 17
o fantástico verden do
quixote nórdico
é tão fantástico que
a fantasia é só
um item do velho éden
Canto nº 18
a informação
contida no verso
é falsa
Canto nº 19
a verdade
anunciada no poema que veio antes
é uma inverdade
Canto nº 20
não é o silêncio
nem a escuridão
é muito menos
de muito antes
é o que eles revelam
não que não exista lá fora
não que não se repita
existe, repete
mas a porta fechada
a vela apagada
o disco parado
mostram um mundo
esse mesmo mundo, pequeno
que pensamos deixar pra trás
toda manhã
mas que volta,
toda noite
menos nas de porre
Canto nº 21
cansado demais pra dormir
feliz demais pra estar triste
inteligente demais pra entender
enquanto isso
muito longe pra estar perto
é só uma questão de circunstância
Canto nº 22
espere a próxima estação
uma que traga flores
e trague nossos medos
uma onde o trem passe
e leve nossos passos
por essa ferrovia
essa que nos trouxe
até lá
continuamos nesse mesmo vagão
esse dos que têm vago o coração
continuamos nessa mesma viagem
de estação em estação
na praça e no verão
um ponto e o contínuo
Canto nº 23
navegar
antes que esse mundo
nos sufoque
navegar
até quando
for preciso
responsável pelas próprias asas
um oceano de liberdade
uma noite de sábado
navegar
o universo numa pimenta
a vida em um segundo
Canto nº 24
inspiração com hora marcada
entre o quinto e o terceiro copos
dentro do quarto
do lado de fora
feito gente que parte
quando chegou pra ficar
Canto nº 25
abaixo dessa linha está o infinito
acima dessa linha está o infinito
Canto nº 26
vou fazer um poema alegre
desses que provocam riso
se dor pode virar rima
falta dela deve ser alegria
Canto nº 27
gosto de frio
concordo que cachecóis são elegantes
mas sabe
esses vestidos
floridos
coloridos
curtos
dão uma alegria no olho
Canto nº 28
“um hemisfério pra cruzar
dez mil mistérios pra esquecer
semeia o vento o que virá
e mudar de vez
sem dó
já não pertenço a um lugar
pro oriente ainda não fui
um pensamento pra guiar
o inferno e o céu estão em mim”
vem cá, sentar aqui do lado
vamo pra estrada do acaso
destino e rota
tanto faz
no caminho, cê escolhe
quem vai primeiro
(quem vem atrás)
qual a distância a percorrer?
são quantas milhas até lá?
que canção vamos escrever?
quando chegar perto do mar
Canto nº 29
sossego
não mais que isso
muito menos menos
as mãos no colo da menina
mãos pequenas, de menina moça
bela
aos poucos, sem pressa
devagarinho
no tempo que o tempo ditar
feito assim um fim de tarde
desses quase sem sol
bonitos
Canto nº 30
menina dos olhos de candura
quanta paz cabe neles?
menina dos olhos de beleza
quanto deles é só paz?
beleza dos olhos de menina
quantas perguntas ainda tenho?
no tapete do ipê-rosa desflorido
eis que surge outro tom
roxo, lilás? nunca sei nome de cor
mas lembro sua blusa
nunca consegui aquela foto
mas juro que é bonito
e mesmo que não venha ser
gosto desse porvir
Canto nº 31
quero encontrar o tom
aquele que sussurro seu ouvido
e te faço chover
aquele ponto
onde a menina vira marinheira
com os seios nus
e só com o olhar
aquele roxo olhar
aquele que só por ele me desmancha
me dá um trem
me deleita
me goza
e vira de lado
Canto nº 32
um universo
contido
entre quatro portas
onde ela se converte
se realiza
realizando
vontade é um diabo
tão de repente
tão incontida
ela se detém
e pára
e não pensa
e prossegue
quando ela se convence
ofegante
realizando(-se)
quero ler pra você
não
quero escrever pra você
em você
Canto nº 33
subverter a ordem
pras cucuias a lógica
e com ela tudo o mais
causa, consequência
razão e efeito
que se explodam
quero antes me explodir
de tesão
de vontade
de você
seu suor
seu gozo
seu colo
e o canto na volta pra casa
desafinado
sem letra
dizendo aquelas coisas
aquelas que não sabemos direito
e que dizem muito
…
te quero
e é agora
Canto nº 34
fiz um estudo
um levantamento estatístico
tratei a questão com todo o rigor necessário
usei planilhas, integrais e um método inquestionável
no fim, descobri
me apaixono
de quatro a doze vezes
ao dia
pelas pernas da menina
pela cor no céu que se põe
pelo acorde fora de hora
pela espuma no fim do copo
pelo vento no vidro aberto do carro
pelo desafio cotidiano
pela flor nascendo
pela poesia indita
Canto nº 35
a oitava cor do arco-íris
o fá-bemol
e o mal dos poetas
continua sendo a poesia