
Canto nº 01
senta aqui
do lado
vamo’ pra estrada
no caminho a gente decide
destino e rota
não sei se nessa ordem
não sei se desse jeito
vamo então
600, 700 km
tanto faz
já faz tanto tempo mesmo
desliga os telefones
e escolhe outro disco aí
tira o rock
negócio agora é bossa-nova
Canto nº 02
a água corre
e segue seu rumo
o mundo gira
e segue parado
cá estamos outra vez
mesmo lugar comum
o mesmo bar
o mesmo flerte
a mesma vontade
de te mandar à merda
com crase
circunflexos e tudo o que temos direito
fica assim
pra próxima, prometo
Canto nº 03
minha vida é um litro aberto
um livro embebido de linhas mortas
das mulheres tortas que amei
guardo esquecimentos de algumas
das várias lembranças dos tempos de velhice
metade bebi enquanto criança
com três quartos fiz drinques de limões
que o mundo me vendeu
sem que eu tivesse tempo de comprar
e é por outras e essas
que por fim, estou ali …
Canto nº 04
onde estão as outras peças?
deixamos cair no túnel?
ou ainda estão no labirinto?
sobreviveram ao tiroteio?
virão ver a luz?
pensei tê-las visto por aqui
e se não chegarem antes do fim?
começamos outro quebra-cabeças?
ou paramos a brincadeira?
Canto nº 05
outro dia
dom quixote, vinicius (de moraes) e charlie brown
se encontraram num congresso
com o tema
a dulcineia ruiva de ipanema
não chegaram a um consenso
também pudera
o poetinha secou uma garrafa de uísque, escocês
o cavaleiro errante vinha de uma batalha contra dragões, ao que parece
e o minduim, coitado, não entendia espanhol
Canto nº 06
meu coração tem uma gaveta
essa gaveta um fundo falso
sabe
foi lá dentro que
eu deixei você
embaixo da conta de luz
e de uns discos do raul
entre o segundo volume do dom quixote
e minha agape
desculpa se ta meio bagunçado
mas sa’comé, né
foi o jeito que arrumei
de ter você por aqui
Canto nº 07
na morcinética do amor estático
que eu sinto por sua mão
não sei se já é o caso
de voltarmos a ter um caso
mas tenho pensado
que o pensamento
às vezes me trai
me fazendo pensar
que ainda
existe uma solução
Canto nº 08
perdido no tempo
achado no espaço
desencontros ao acaso
desencantos premeditados
boto fé que possa ser
mesmo depois dos 49
Canto nº 09
prece de um boêmio apaixonado
uma mulher bela é
como uma boa música
no momento certo
ela tem um quê
de fazer preza
oh! deus
obrigado por tantas
canções belas
e tantas mulheres boas
Canto nº 10
por trás do sorriso ébrio da mulher bonita
há uma inquietude
que não sonha o poeta
no copo lagoinha borrado de batom vermelho
há motivos
que não entende o engenheiro
Canto nº 11
— (gritando) um brinde
— (em tom de lucidez) a todos os que estão vivos e sobreviveram
— (voz trôpega) a gente tá ficando uns veizinho batuta
Canto nº 12
por saber que assim seria
quando a noite se fez dia
jogou fora paixão incauta
pois ele só queria
o diploma de astronauta
Canto nº 13
me acho nos seus cachos
navego seu riacho
lá embaixo me encaixo
esperando que passe logo
esse tarde do diacho
Canto nº 14
na tênue fronteira
entre os vinte e poucos e os vinte e tantos
a gente vai levando
tentando construir palavras
tentando entender números
na distância entre um tango e outro blues
há mais que algumas milhas
há menos que se pensa
há que se pensar menos
há que se andar mais
vamos!?
(-:
o trem já vai partir com destino ao acaso
nossa coragem é o bilhete
a estrada um retão torto sem fim
no caminho dá tempo de aprender
na prática e na teoria
o que a nossa vontade vier querer
vamos!
🙂
Canto nº 15
moça bonita
que traz nossa cerveja
guarda esse sorriso
se ele vier junto
toda vez
vamos sair daqui
embriagados
Canto nº 16
outro dia me peguei pensando naquela menina
e pensando naquela menina
eu pensei naquele menino
e pensando naquele menino
eu pensei em tanta coisa boa
que nem cabe aqui
nesse papel
pensei naquele livro que escrevi
naquela árvore que plantei
e naquele filho que não tive
pensei em você, sabe
naquela flor no cabelo
e aquele sorriso
aquele hibisco
que você me deu na biblioteca
aquela vez
que fui no seu portão
aquele dia
que te dei um abraço
sabe, aquele dia eu pensei
que o mundo cabia
naquele abraço
ou naquela kombi
Canto nº 17
— a lua ta bonita, vão fazê um luau
— mas hoje é segunda-feira
— sério? acho que não contaram isso pra ela
Canto nº 18
um beijo é uma reza
prum marujo que se preza
pena que o meu amor
ficou na curva do ponteio
Canto nº 19
[…]
água, caindo do céu, conforta
água, vindo e indo no mar, acalma
a água, seus sons e o vento
a água, o vento e seus sons
[…]
então fechei meus olhos
e me lembrei que há de ter paciência
deixe estar que esse vendaval passa
[…]
Canto nº 20
tendo a lua e o asfalto por companhia
sigo
porque só eu sei até quando
sim, meus problemas me bastam
meus amigos também
de tudo que foi vão ficar as canções
e aquele cheiro que eu nunca soube descrever
não entenda isso como uma vírgula, ponto final ou outro símbolo qualquer
nunca houve métrica ou tempo certo nessa estória
houve um monte de palavras e histórias boas pra lembrar
e isso foi suficiente
amanhã quando amanhecer serei outro e você outra
vou torcer e lembrar de você com carinho, moça
Canto nº 21
nem sempre no silêncio noturno de uma pausa há paz
mas talvez só precisemos fechar os olhos
e notar pelo ritmo da chuva lá fora
que quando clarear essa lareira ainda vai estar acesa
Canto nº 22
um dia,
como se fosse o primeiro
e o último,
mas
um
dia
de
cada
vez,
rapaz
Canto nº 23
tão bonita que nem parece de verdade
tão próxima que nem parece que foi ontem
o cheiro vai ficar na memória, assim como o cabelo, o beijo e o suor
tenho medo de algumas palavras ditas ao pé do ouvido
de dizer que te amava e nem te conhecia
Canto nº 24
esse sorriso bobo estampado na cara às seis da manhã: ela.
essa barba feita toda semana: ela. esse olhar meio longe demais de tudo: ela.
esse amarelo impregnado no resto do mundo: ela. essa fome, esse desejo.
esse universo novo explodindo num big bang de vontade ingênua de ficar e não pensar em
nada: ela ..
confesso: eu menti, estou me apaixonando.
Canto nº 25
o individualismo coletivo
em luta contra
o egoísmo altruísta
a consciência inconsciente
está do mesmo lado
que a fobofobia corajosa
o patriotismo de pernas abertas
não quer abrir mão
do conteúdo impresso do circulor nº 05
os direitos que devemos
não fazem sentido
nada é fidedigno
nada é maravilhoso
o poeta está morto
e os ratos na piscina
nada é bonito
os olhos de guernica estão cegos
os anjos têm desejos sexuais
um ser irracional
umas linhas idiotas
Canto nº 26
deu na tevê que vai chover
quando voltar
pego a correspondência
vi no jornal que vai ter guerra
quando sair
compro seu chocolate
li num livro que é bom viver
quando dormir
apago a luz da sala
ouvi num disco que é bonito sonhar
quando acordar
coloco o lixo pra fora
assisti um filme que falava de deus
Canto nº 27
ao surgir da aurora
o dia se revela
pensas estar no início
os bêbados retardatários
só estão no fim
ao nascer de um novo dia
a aurora se revela
pensas acordar
os boêmios atrasados
só vão pegar no sono
enquanto pensas seres tu
és mais que um personagem
enquanto pensas seres o início
és mais que isso
és o fim, és o meio
és tu
eis o surgir da aurora
és o nascer de um novo dia
és efêmera esfera eminente
Canto nº 28
andei bosques, castelos
desci escadas, furei gaiolas
horas intermináveis joguei longe minha noção
olhei para quarenta rostos
sem ter uma visão zelosa
andei bebendo cachaça
deixei explodir felicidade
ganhei hostil indesejado
jovens loucos mudaram nossa oração
pára-quedas roubaram seu tesouro
ultrajados voltamos zangados
ainda bêbados cansamos de esperar
filmamos guerras horríveis
imploramos jantar
luas molhadas não ouvimos
pra que rogar senhores
temos um verdadeiro ziguezague
Canto nº 29
navegando
estações de rádio pirata
esperando
o fim
que parece chegar mais cedo
o sol se pôs ao meio-dia
a lua não apareceu noite passada
Canto nº 30
vou confessar
as mentiras que não disse
vou esquecer
os sonhos que sonhei acordado
vou apagar tudo
o que não foi escrito
vou deixar de fazer
o que planejei
vou tentar ser só
Canto nº 31
janela fechada, porta distante, estrela apagada, caminho sem fim, livros sobre a mesa,
almofadas no chão, calendário atrasado, relógio quebrado, caneta sem tinta, amor sem
loucura, mochila vazia, semana que vem, ônibus lotado, armário abafado, carteira roubada, a
tevê desligada, o vizinho é chato, o futuro incerto, maio, julho, junho abril e fechou, agosto,
gostando de ti, sorvete de morango no quarto escuro, telefone tocando, o caderno aberto, o
mar pela foto, perigo nas ruas, madrugada distante, casal na esquina, arroz e feijão, caviar ou
mingau, carros azuis, olha o céu que tá cinza, a parede rasgada, o papel sem ator, a bandeira
furada, a arma de ouro, o abraço cansado, o corpo em pecado, a flor sem amor, a estrada sem
escada, o violeiro sem mão, o poeta sem dor
Canto nº 32
feche a porta
ninguém pode nos ver
apague a luz
ninguém pode nos ouvir
tenho algo a lhe dizer
tranque a janela
ninguém pode perceber
desligue a tevê
ninguém pode interromper
tenho algo a lhe dizer
feche a porta
agora pouco importa
tenho algo a lhe dizer
são estes os últimos versos
não quero que pergunte o porquê
são estes os últimos versos
agora
abra a porta
acenda a luz
destranque a janela
ligue a tevê
se foram …
Canto nº 33
regendo nosso encontro
estão as equações celestiais
descrevendo nossos dias
estão as quimeras legais
enquanto isso
a gente vai
porque sorte nessa vida
é estar aqui
com você
Canto nº 34
e naquilo você acorda às quatro da manhã
não sabe onde está
justamente porque está em casa
seus amigos foram embora
e você acha ruim
justamente porque não se lembra de nada
mas eles são gentis
deixaram cervejas na geladeira
você abre uma
liga umas músicas que falam de saudade
e bebe com seus fantasmas
começa a chover e você pensa que a chuva é mais uma bênção
Canto nº 35
o sol vai nascer
a gente vai envelhecer
e o mundo vai ser
um eterno jardim
põe no rosto um sorriso
põe na janela a perpétua
traz a orquídea pra fora
o dia vem vindo
e com ele o senso
de sermos melhores